SOBRE A REDE

A Rede de Pesquisa Rio Doce é composta por pesquisadoras e pesquisadores dos grupos de pesquisa e extensão CRDH, GEPSA, Homa, PoEMAS e Organon. A Rede foi constituída a partir do encontro de cientistas que buscavam, dentro das ciências humanas e sociais, não apenas desenvolver uma pesquisa crítica sobre o rompimento da barragem de Fundão, mas também construir conhecimentos e saberes em parceria com as comunidades atingidas e que fossem importantes para subsidiar a luta dessas comunidades por seus direitos.

Nos primeiros meses que sucederam ao rompimento da barragem de Fundão diversos atores se apresentaram como interessados nos seus desdobramentos, entre entidades de classe, imprensa, instituições de ensino (nestas incluídos os grupos de pesquisa e extensão), organizações estatais e não estatais, poderes públicos em suas distintas escalas, movimentos sociais, coletivos de interesse social, grupos religiosos e até empresas. Junto com essa avalanche de atores instalou-se também um clima de desconfiança, pois no primeiro momento não era possível identificar os interesses ali representados e tampouco se sabia com clareza que havia uma disputa sendo travada, com polos diametralmente opostos, tendo as empresas responsáveis pelo desastre de um lado (Samarco, Vale e BHP Billiton) e as pessoas atingidas do outro lado.

Com o passar do tempo, alguns desses atores mencionados perderam o interesse e se afastaram do conflito que se aprofundava ao longo dos territórios afetados pelos rejeitos – principalmente se considerarmos a presença e permanência nas áreas atingidas –, conformando um número muito mais reduzido e mais claro a respeito dos seus interesses e posicionamentos em relação aos direitos das pessoas atingidas e à postura adotada pelas empresas causadoras dos danos.

Novos atores foram também se aproximando, a cada desdobramento das negociações judiciais e extrajudiciais dos conflitos decorrentes do rompimento da barragem de Fundão, mas, depois de alguns meses após o colapso da barragem, até mesmo a forma de aproximação do conflito já servia como indicativo acerca do posicionamento desses atores e o que se podia esperar deles.

Foi nesse contexto que a Rede de Pesquisa Rio Doce se formou, entre o primeiro e o segundo ano após o rompimento da barragem, no processo de identificação de parceiros e interesses representados; a partir de convergência nas visões de mundo e do papel da academia; bem como da preocupação com a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão; no compartilhamento da compreensão de que a universidade pública deve estar a serviço da sociedade, principalmente daqueles que sofrem a maior parte dos impactos causados pela sociedade desigual na qual vivemos. A esses pontos de convergência entre os grupos que integram a Rede somam-se o compromisso com os direitos das pessoas atingidas e a postura orientada pela ética da alteridade e pelo princípio da centralidade do sofrimento da vítima em situações de conflitos socioeconômicos e ambientais.

Na trajetória acadêmica construída pela Rede de Pesquisa Rio Doce destacam-se momentos importantes para o estabelecimento de uma identificação e confiança entre os grupos que a integram, entre estes e outros parceiros e, sobretudo, entre a Rede e as pessoas atingidas. Podemos enumerar como eventos determinantes para a formação da Rede a organização dos “Seminários de Balanço” do desastre de Fundão, de 6 meses (realizado em Mariana/MG), 1 ano (realizado em Ouro Preto/MG), 2 anos (realizado em Vitória/ES), 3 anos (realizado em Ouro Preto/MG) e 4 anos (realizado em Governador Valadares/MG); o desenvolvimento de projetos conjuntos, como a oficina de “Direitos Humanos e Mineração” promovida pelo Homa, o livro “Desastre no Vale do Rio Doce”, organizado conjuntamente pelo Organon e pelo PoEMAS, a participação no IV Seminário Internacional de Direitos Humanos e Empresas, a Arena Itinerante do Organon, a mesa conjunta, denominada “Sessão Livre – Impactos da Mineração na Dimensão Socioespacial”, apresentada no XVII ENANPUR; a participação articulada no Grupo de Trabalho junto à Força Tarefa do Ministério Público Federal para o caso do Rio Doce; a proposição de ingresso conjunto, perante o Juízo da 12ª Vara Federal de Belo Horizonte, como Amici Curiae (Amigos da Corte), na Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público Federal para a reparação integral dos danos sofridos pelas pessoas atingidas e, por fim, a produção do Podcast “Cava – Mineração em debate”, em parceria com o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração e o Grupo Terra, da UFJF.